
de acordo com as mais recentes regulamentações da lei de transmissão online (osa), emitidas pela comissão canadense de rádio‑televisão e telecomunicações (crtc), plataformas estrangeiras de streaming cujas receitas anuais ultrapassem 25 milhões de dólares canadenses — incluindo serviços líderes como netflix, disney+ e apple tv+ — devem destinar 15% de toda a receita gerada no canadá para apoiar o ecossistema de conteúdo nacional. esse percentual incorpora a obrigação anterior de 5%, estabelecendo um mecanismo unificado e vinculante de alocação de recursos.
a aplicação desses fundos está sujeita a requisitos estruturais claros: a grande maioria deve ser direcionada ao financiamento do desenvolvimento, da produção e da distribuição de projetos audiovisuais canadenses originais; desse montante, 30% são obrigatoriamente destinados a conteúdos em língua francesa, visando reforçar o impulso criativo dentro do quadro cultural bilíngue do quebec e do país. além disso, grupos de radiodifusão com receitas anuais superiores a 100 milhões de dólares canadenses assumem responsabilidades colaborativas mais amplas — além dos pagamentos regulares, 30% das despesas por eles designadas devem ser canalizadas para projetos de coprodução com produtoras canadenses, sendo que pelo menos 15% dessa parcela devem apoiar especificamente programas de notícias e assuntos atuais, a fim de preservar a resiliência do ecossistema de informação pública do país na era digital.
o crtc prevê que, com a plena implementação da osa, cerca de 2 bilhões de dólares canadenses em investimentos adicionais serão mobilizados para o conteúdo nacional canadense — incluindo narrativas indígenas e obras em língua francesa — nos próximos cinco anos. para garantir a utilização eficaz desses recursos, o regulador introduziu simultaneamente novas regras de “descobribilidade”: as plataformas são obrigadas a otimizar o design de suas interfaces front-end e a lógica de seus algoritmos de recomendação, aumentando significativamente a visibilidade e o alcance dos programas produzidos no canadá. essa iniciativa não apenas busca elevar o tempo de consumo, mas também promove uma transição sistemática do modelo tradicional de apoio cultural da era da radiodifusão para um contexto de mídia de streaming orientado por algoritmos.
logo após o anúncio, a política enfrentou resistência conjunta de gigantes multinacionais de tecnologia e entretenimento. apple, amazon, spotify e a filial canadense da associação de produtores de cinema (mpa) apresentaram pedidos de revisão judicial junto ao tribunal federal, argumentando que as novas regulamentações impõem encargos financeiros “incomuns, desnecessários e, de fato, discriminatórios” às plataformas sediadas nos estados unidos, questionando se elas poderiam distorcer a concorrência no mercado e comprometer a autonomia operacional das empresas.
em resposta, scott shortliffe, vice-presidente de radiodifusão do crtc, esclareceu que, enquanto órgão estatutário de natureza quase judicial, as decisões da comissão possuem a mesma força legal das sentenças dos tribunais, e quaisquer ajustes substantivos devem passar por revisão e confirmação do tribunal federal de apelação. ele enfatizou que os deveres regulatórios não podem ser suspensos em razão de litígios: “ser regulado nunca é uma experiência agradável, e ter de pagar pelos valores culturais públicos é ainda menos agradável — mas é justamente essa tensão que define a legitimidade da regulação.”
no plano político, o governo federal está conduzindo uma avaliação interministerial da política. o ministro da cultura, marc miller, reiterou que garantir que o público canadense possa acessar facilmente conteúdos originais produzidos no país em plataformas de grande circulação é tanto um direito cultural fundamental quanto um princípio ético central que orienta a formulação de políticas.
quanto às preocupações com a conformidade, a parte canadense invoca a cláusula da “exceção cultural” prevista no acordo entre canadá, estados unidos e méxico (cusma), afirmando que a osas está plenamente alinhada ao reconhecimento e à proteção, pelos tratados internacionais, da soberania cultural dos estados‑membros. em contrapartida, a parte norte‑americana sustenta que tais arranjos de financiamento obrigatório elevam efetivamente as barreiras à entrada no mercado e podem violar o espírito dos princípios de não discriminação do acordo relativos aos serviços digitais.
em meio à crescente conscientização global sobre a soberania de conteúdo, a decisão do canadá de elevar a taxa de investimento local para serviços de streaming para 15% representa não apenas um reforço da alavancagem fiscal, mas também marca uma extensão proativa da governança cultural nacional profundamente inserida na economia das plataformas. os defensores veem nisso uma alavanca crucial para combater a homogeneização algorítmica e reconstruir espaços narrativos diversificados, enquanto os críticos alertam que uma regulação excessiva poderia sufocar a inovação e potencialmente desencadear uma nova rodada de disputas comerciais digitais transfronteiriças.