
a proibição das redes sociais imposta na austrália a menores de 16 anos já enfrenta desafios concretos, poucos meses após entrar em vigor: muitos adolescentes não foram efetivamente impedidos de acessar essas plataformas; ao contrário, rapidamente encontraram maneiras de contornar a verificação de idade e as restrições às contas, incluindo o uso dos dados de reconhecimento facial dos pais, a apresentação de documentos de identidade parentais e até tentativas de enganar os sistemas de reconhecimento facial com máscaras.
segundo relatos, a proibição foi implementada em dezembro de 2025, com medidas-chave como a verificação de idade pelas plataformas, a renovação obrigatória das contas e a proibição de novos cadastros para usuários que ainda não atingiram a maioridade legal. no entanto, mesmo antes da entrada em vigor dessa política, adolescentes australianos começaram a compartilhar “soluções alternativas” online. por exemplo, uma jovem de 14 anos, em nova gales do sul, afirmou que planejava usar o reconhecimento facial da mãe para acessar o snapchat e o instagram; no reddit, alguns usuários sugeriram comprar máscaras de malha impressas para driblar os sistemas de reconhecimento facial baseados em aplicativos, enquanto outros tentaram utilizar vpns para ocultar suas informações de localização.
a mais recente pesquisa revela que tais estratégias de contorno estão longe de ser casos isolados. no mês passado, a organização britânica de prevenção ao suicídio molly rose foundation entrevistou 1.050 menores australianos entre 12 e 15 anos e constatou que, entre os respondentes que já possuíam contas nas redes sociais antes da proibição, mais de 60% ainda conseguiam acessar pelo menos uma de suas plataformas existentes. em particular, o tiktok, o youtube e o instagram mantiveram cada um mais da metade de seus usuários com menos de 16 anos. cerca de dois terços dos jovens também relataram que essas plataformas não tomaram “nenhuma medida” em relação às contas pré-existentes — nem as excluíram nem reimplantaram as restrições correspondentes.
pouco antes da divulgação dessa pesquisa, a autoridade reguladora da internet da austrália determinou a abertura de uma investigação sobre as cinco principais plataformas de mídia social, visando apurar se haviam violado a proibição. tornando-se o primeiro país do mundo a aplicar amplamente uma proibição de uso de redes sociais por menores, a austrália tornou-se, de fato, um caso‑estudo crucial para outros governos que buscam avaliar o impacto dessa política. atualmente, grécia, frança, indonésia, Áustria, espanha e reino unido já adotaram ou estão considerando medidas semelhantes, enquanto oito estados norte‑americanos também elaboram projetos de lei para restringir ou proibir o uso de redes sociais por menores.
um importante contexto para a iniciativa da austrália nesse sentido é o crescente corpo de pesquisas que examina a relação entre as redes sociais e a saúde mental dos adolescentes. relatos indicam que alguns estudos apontam correlação entre o uso prolongado das redes sociais e problemas como depressão e ansiedade; um estudo de 2022 chegou a constatar que quase metade dos adolescentes se sente pior em relação à própria imagem corporal devido às redes sociais. além disso, em março deste ano, um júri no novo méxico decidiu que o youtube e a meta eram responsáveis por projetar recursos viciantes que prejudicam a saúde mental dos jovens, embora ambas as empresas tenham anunciado, desde então, que irão recorrer da decisão.
no entanto, a comunidade acadêmica ainda não chegou a um consenso sobre se as redes sociais são inerentemente prejudiciais. jacqueline nesi, professora de psiquiatria e comportamento humano na universidade brown, observa que, analisado em conjuntos de dados mais amplos, o impacto do uso das redes sociais entre adolescentes é, na verdade, bastante complexo. por um lado, pesquisas mostram que as plataformas online podem ajudar jovens lgbt+ a sentir um senso de pertencimento e oferecer espaço para a autoexploração; por outro, essas mesmas plataformas também podem tornar os menores mais vulneráveis a contatos online não solicitados — ou até mesmo ao grooming — por parte de adultos. ela ressalta que, no momento, o que está claro é que os efeitos variam significativamente entre diferentes faixas etárias e que o impacto final das redes sociais depende, em grande medida, da forma como são utilizadas.
nesi acredita que os dados sobre os efeitos do uso das redes sociais entre adolescentes ainda são relativamente recentes e incompletos, o que significa que só podem servir como parte da base para a formulação de políticas, e não como resposta definitiva. na sua opinião, legislações como a proibição australiana também são moldadas por valores sociais e pelas condições práticas de implementação, e muitas questões não podem ser plenamente respondidas apenas com base nas pesquisas existentes.
apesar das dúvidas externas quanto à eficácia da proibição, nesi não considera que restringir o acesso de menores às redes sociais seja totalmente inútil. ela argumenta que isso não significa necessariamente que a direção da política esteja errada; ao contrário, pode refletir falhas na maneira como a política vem sendo aplicada atualmente. em outras palavras, o problema talvez não esteja em se devem ser impostas restrições, mas sim em como elas são implementadas — e se realmente podem ser colocadas em prática.
ao mesmo tempo, diversas organizações nacionais na austrália têm manifestado preocupações com a proibição sob diferentes perspectivas. o grupo de trabalho australiano pelos direitos da criança aponta que, se a lei pressupõe implicitamente que os jovens não deveriam usar esses aplicativos, isso poderia enfraquecer o incentivo das plataformas a continuar investindo em recursos de segurança infantil. já o grupo sem fins lucrativos da indústria digital australiana alerta que a proibição pode levar usuários com menos de 16 anos a recorrer a áreas menos regulamentadas e de maior risco na internet.
nesi acrescentou ainda que, se defensores e legisladores desejam que tais proibições sejam realmente eficazes, precisam primeiro compreender por que os adolescentes utilizam as redes sociais e, em seguida, oferecer alternativas em outros contextos que possam atender a essas mesmas necessidades. ela destacou que os jovens vão à internet não apenas para passar o tempo; suas atividades online frequentemente refletem um desejo de autonomia, curiosidade, entretenimento, senso de pertencimento e conexão social. se as políticas simplesmente cortarem o acesso sem oferecer alternativas offline ou outras opções mais seguras, será difícil que tais proibições permaneçam eficazes a longo prazo.